APARELHAMENTO
É um mar de opiniões e críticas, ondas, confusão. Todos
parecem entender o que não dá para se entendido, pois não é explicado. Cada
qual puxa as brasas para a sua sardinha. Quem está na oposição, critica, fala
de ideal, justiça e respeito. Na situação é criticado, equiparado ao anterior e
elevado a menos um. É assim que a coisa vai, ou melhor, flutua sem rumo num mar
de confusão. Vamos por os pingos nos is!
Você já ouviu falar em aparelhamento. Não! Não importa, irá saber agora o que significa.
É uma palavra dos anos cinqüenta, referia-se a um escritório político
escondido, clandestino. Tempos de ditadura, tempos de idealistas socialistas e
comunistas. Como não havia liberdade para ser do contra, de poder instalar um
escritório com telefone, máquina de escrever, ter um local abrigado para
reuniões, um mimeógrafo e prateleiras para guardar os panfletos, os jovens rebeldes
instalavam-se na clandestinidade. Quer dizer, aparelhavam-se!
O verbo aparelhar vem de aparelho mesmo. Máquina que facilita
o trabalho da gente, a exemplo da enceradeira, da batedeira, do liquidificador,
da chave de grifo, do automóvel, telefone, etc., sem os quais o homem
civilizado não é nada, ou quase nada. Sem trator não se abre estrada, se for à base
de picareta e enxada, na força bruta como se diz, levará décadas. Com a
política é a mesma coisa. Ela depende de aparelhamentos. Você precisa ter
salões que reúnam as pessoas, microfones, alto falantes, jornais, rádio e TVs
para levar mensagens. E as pessoas não vão a qualquer lugar porque foram
convidadas, não é assim. Elas precisam de razões, de motivações, água, café,
bolinhos. Ou seja, quem faz política precisa de ajuda de outras pessoas, de
preferência pessoas bem relacionadas em vários segmentos da sociedade a exemplo
de um padre ou um pastor, um líder sindical, um jogador de futebol afamado, um
comerciante ou industrial importante, artistas, médicos e advogados de
destaque, lideres comunitários e assim por diante.
Quanto mais importante e melhor situada economicamente,
melhor aparelhada. Um comerciante e industrial como o Paulo Maluf, tinha uma
grande empresa, a Eucatex, e integrava a diretoria da Ciesp e da Fiesp,
organizações que comandam aparelhos importantes como o Senai, o Sesc, o Sesi e
o Sebrae, todos alimentados com dinheiro público e dentro da lei. Na época,
estes organismos recebiam 3% da folha de pagamento de todos os assalariados,
uma verdadeira fortuna. Antes de tentar a eleição para algum cargo ele se
garantiu na eleição da Associação Comercial do Estado de São Paulo, tornou-se
presidente desta associação, que além de congregar os principais comerciantes
do estado, recebe contribuições e tem dois importantes aparelhos: um cartório
de registro de contratos sociais, onde se registram as empresas e uma rede de
prestação de serviço de cadastro e informações comerciais de pessoas jurídicas
e físicas.
O Lula era diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na
época com cerca de oitenta mil filiados e uma receita garantida por lei, a
contribuição sindical, obrigatória, que atualmente o referido sindicato devolve
aos operários. Mas antes não devolvia, usava o dinheiro para se aparelhar
politicamente. A ação, o trabalho do sindicato é fazer política a favor dos
operários sindicalizados. A Fiesp faz o mesmo, faz política a favor dos
empresários. A Federação dos Bancos, a favor dos banqueiros e assim por diante.
Tudo muito claro, mas falta quem faça política para o grupo que você pertence,
não é verdade? Então se mexa! Faça política! É assim que funciona a sociedade
de massas, através de aparelhos. Se a cidade for pequena, os aparelhos serão
pobres, restritos. Se for um bairro pobre da periferia, não terá aparelho
próprio, não terá atividade política própria. Será visitado por políticos de
outros lugares, aparelhados em seus lugares de origem, com interesses próprios
e para conseguir votos oferecerão alguns brindes de passagem, como os
portugueses faziam para conquistar os índios (não seja o índio).
Depois de ter lido isto, vocês podem imaginar a situação da
Bolívia. Pobre, desaparelhada, 80% da população indígena submetida ao
aparelhamento de uma minoria espanhola e bem aparelhada. A Bolívia, em um
século de história, teve mais de cento e cinqüenta golpes. O Morales, que é de
origem indígena, foi o primeiro nativo a se aparelhar e conseguir administrar o
país. Faz três anos, nova tentativa de golpe, a oposição quis formar um país
novo, cuja capital seria em Santa Cruz de La Sierra.
O Brasil se manteve inteiro graças ao Exército Brasileiro.
Antes, com Dom Pedro, a monarquia era garantida pela frota de guerra inglesa e
pelos Lanceiros austríacos. O quartel deles ficava próximo do palácio do
imperador. Os navios ingleses vigiavam a costa brasileira. Os oficiais do
exército brasileiro eram recrutados entre os bem nascidos, aqueles que tinham
boas relações com a corte. Este era o aparelhamento militar da nossa monarquia.
Com a Guerra do Paraguai e o crescimento populacional, o Exército do reinado
recrutou muita gente do povo e foi se tornando mais brasileiro a cada dia.
Distanciou-se da monarquia e se aproximou da nova burguesia, passou a ser
aparelho dela. Isto aconteceu em todos os países, em todos os lugares, é uma
sequência natural das coisas. Todavia, por ter soldados de todas as regiões, não
permitiu que províncias como a do Rio Grande do Sul e depois São Paulo se
separassem da Nação.
São Paulo e Rio de Janeiro cresceram muito, ficaram ricos.
Paulistas, cariocas e mineiros reclamam que o voto não é proporcional, que um
deputado de Roraima tem um décimo dos votos de um deputado paulista. Que isto
não é justo.
Ora, em política não se faz justiça, defende se interesses e
posições. Se fossem proporcionais, a Câmara seria dominada por alguns estados,
pois estaria aparelhada por eles. Os estados nordestinos, do Norte e do Oeste
não teriam força alguma no Congresso. Quem garantiu uma divisão de forças e
manteve o Brasil estável foi as Forças Armadas, pois quando os políticos não se
entendem, a força é a instância que conta e dá a última palavra.
O Fernando Henrique era um jovem professor, apenas isto? Não! FHC era filho e neto de general, era uma
pessoa bem relacionada, amigo de pessoas com recursos, bem aparelhadas. Não
caiu do céu. Aliás, seu livro é confuso. Cresceu porque caiu nas graças e na confiança
de vários segmentos da sociedade. Quando retornou ao Brasil, foi recebido por
pessoas que faziam política, tinham recursos e viam nele as seguintes virtudes:
formado, sociólogo, bem apessoado, democrata, cheio de idéias, filho de
general. Se não contasse com o aparelhamento dos grupos que o apoiaram, teria
que dar aula, escrever mais alguns livros e se aposentar como professor.
O que eu quero esclarecer é que as pessoas são importantes,
sim, mas são os recursos que contam, são eles que definem onde elas podem
chegar. É por isto que todo vereador quer manter a verba de gabinete. É um
recurso financeiro importante para ele pagar pessoas que o manterão
politicamente ativo e vivo. O gabinete é um pequeno aparelho. Se o candidato for
rico, gastar dinheiro, mas perder a eleição, ele poderá se candidatar novamente
e gastar mais um pouco. Não lhe fará falta. Se for remediado, terá que pagar as
contas do próprio bolso, poderá ficar quebrado e ainda mal visto. As pessoas
tem inveja. Algumas até se regozijam mal dizendo e diminuindo os candidatos que
perderam. Outras, a maioria, corteja e fala bem dos que ganharam na expectativa
de receberem favores. É cruel! Tendo isto em conta, o candidato tenta se
aparelhar antes da eleição. Ou seja, busca recursos com pessoas e empresas que
tem interesse nos negócios do município: merenda, limpeza, obras, etc.
Compromete-se a apoiar projetos que facilitem a vida e os negócios dos que
contribuíram com a sua campanha. Desta forma não fica devendo dinheiro, mas
favores. Favores que poderão ser devolvidos quando for eleito. E se além de
eleito, tiver um cargo, ficará mais fácil, pois estará aparelhado e poderá voar
mais alto como deputado ou prefeito.
Se for da oposição, não terá cargos. Logo, é melhor e mais
fácil se aproximar do prefeito e/ou do governador para apoiá-los e trocar
figurinhas. Que figurinhas? Aparelhos, ora! Nos últimos anos o presidente do PPS,
Roberto Freire, presidente do antigo Partido Comunista Brasileiro, que mudou de
nome e sigla, foi aparelhado como Conselheiro de um dos órgãos do Governo do
Estado de São Paulo e passou a ganhar cerca de 23.000,00 por mês para
participar de uma reunião por mês. O curioso é que o Roberto Freire era de
Pernambuco, onde fez carreira política, mas tendo perdido a eleição lá veio se
aparelhar com o Serra por aqui. Como se vê, o aparelhamento não se dá apenas na
cidade e no estado de origem. Quando o candidato não consegue nada na sua
cidade, ele se associa a quem conseguiu em outras. O que não pode é o político
ficar sem recursos, sem aparelhos. Ele morrerá politicamente.
Em resumo, política se faz com recursos, com dinheiro. É por
isto que pobre raramente se candidata. Quando muito puxa voto para a sigla,
serve de cabo eleitoral para os cargos majoritários. Lula é uma exceção. O PT somente conseguiu se
aparelhar graças aos sindicatos e graças aos movimentos eclesiais de base da
igreja católica que atuavam na periferia, entre os pobres, na massa. Agora,
depois de conseguir muitos cargos, depende dos aparelhos que conseguiu e luta
para mantê-los. Todavia, como, de praxe, é uma minoria do partido que ocupa os
cargos, aos poucos o partido se afasta os militantes idealistas e centraliza o
poder nas mãos de quem detém os aparelhos, torna se um partido igual os outros.
Não há outro modo. Ainda não inventamos. Tem sido assim no
mundo todo. Nos EUA o aparelhamento é considerado legítimo, natural. O lobby
está instituído. Quem é deputado é deputado de alguém, representa um segmento,
um grupo de interesses. Nós latinos fazemos de conta que a política é o que ela
na verdade não é. Já esta na hora da
gente deixar de se enganar e entender de uma vez por todas que a política é um
jogo de interesses. Bom repetir, de interesses. A política não faz justiça, não
traz a ordem, não acaba com a pobreza. Quem detém algum poder, defende os
interesses seus e do seu grupo. Um país está bem quando há equilíbrio de forças
políticas, de tal modo que todos precisem negociar seus interesses com os
demais. Quando isto acontece e está acontecendo agora no Brasil, o país vai
bem.
Por isto, a questão não é o aparelhamento, o dinheiro
arrecadado nas campanhas, mas as intenções e as competências que importam.
Agora a coisa complica, pois a sociedade é uma colcha de retalhos, cada qual
com um formato, uma cor. Foi assim que Deus nos fez. Todavia, se olharmos para
trás, veremos que progredimos muito. A colcha ficou maior e melhor. O
crescimento populacional e a urbanização dificulta que poucas pessoas deem as
cartas. O jogo político agora é jogado por muitos e diferentes grupos de
interesses. É a primeira vez que os sindicatos de trabalhadores jogam sem serem
perseguidos. É a primeira vez que temos outras igrejas, a exemplo das
evangélicas, interferindo no processo. É a primeira vez que temos uma rede
eletrônica capaz de competir em informação e opinião com as grandes empresas
jornalísticas formadoras de opinião. As pequenas cidades ainda estão reféns de
alguns grupos, mas isto também mudará em breve.
Antes de votar, analise se o
candidato tem defendido seus interesses. É só isto que de fato importa. Se não
identificar nenhum, vote com o objetivo de manter o jogo equilibrado. A
democracia funciona bem assim: a posição precisa de maioria para governar a
cidade e de uma oposição consistente e competente para fiscalizar a
administração. Daniel Strutenskey de
Macedo
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