quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

TRANSPARÊNCIA e SONHOS



TRANSPARÊNCIA e SONHOS



Honestidade pressupõe transparência. Se as pessoas não disserem o que pensam, a honestidade não é possível. Mas como dizer o que se pensa a pessoas que pensam de outro modo e correr o risco de ser mal interpretado, de ver versões defeituosas circularem sem controle, nos difamando? O medo de ser mal interpretado e prejudicado é um dos obstáculos à transparência.  
Outro, maior que este, segundo Julián Marías, é que a transparência, na sua essência, pede que nos dispamos e a maioria de nós mal  consegue ver a si próprio, não se enfrenta, não é honesta nem consigo mesmo.

Julian Márias, espanhol, professor de filosofia e escritor, explica que a transparência é uma experiência radical e dada a algumas pessoas devido seu caráter recôndito, íntimo, oculto, e tem que ser recíproca. Diz que viver a transparência com outra pessoa é penetrar na sua intimidade e aceitá-la sem o temor de descobrir algo que não se queira compartilhar, e que há transparências parciais, trivialmente conhecidas como confiança.

Rubens Alves, escritor e psicanalista, diz que os jornalistas não usam o pronome “eu” porque quem diz “eu” mostra a cara e o “bom” jornalista não deixa que isto aconteça, que sua “única” missão é ser um espelho de cem olhos e que o bom espelho não se deixa ver. Quanto mais clara e distinta for a notícia, tanto mais invisíveis serão o jornalista e seu olho. Neste ponto, ele diz que foi atacado por uma doença oftálmica e que também atacou o Jorge Luiz Borges, que ao final da vida fez esta declaração comovente: “um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo (jornalistas e escritores). Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de habitantes, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto”. Esta doença se chama poesia. O poeta sabe que a notícia revela sempre o rosto de quem a dá.

Eu, marqueteiro, que não sou bobo, faz tempo sei que há um só tipo de gente capaz de falar de Deus, os poetas. Digo Deus querendo me referir ao lugar da moradia da consciência que é inegociável.  Lugar que a gente não sabe onde fica, nem o que é, mas que a gente, sendo filho, sabe que as mães têm.  O Marías diz que toda vida autêntica é sempre sistema e refere-se a esse recanto da alma como o último centro e que a verdadeira transparência exige uma condição: a exclusão de toda traição a esse fundo insubornável (quem vai encarar?).

Juntando-se o Rubens com o Marías, vê-se que jornalismo não combina com poesia e vice-versa. Não combina com transparência, mas com reflexão de espelho. Não combina com honestidade, mas com ilusão. O Rubens até assume que não lê jornais, só passa os olhos pelas notícias: “preciso ter uma idéia não do que está acontecendo, mas do que é notícia”. O que está acontecendo e o que está sendo notícia não são a mesma coisa. Notícia vem de notar e o “notar” varia de corpo para corpo. Urubu não nota madressilva, Beija-flor não nota carniça. Jornal de Beija-flor é diferente de jornal de urubu”.

Eu não tive a intenção de ser coerente e conseqüente. Longe de mim tal defeito. Todavia, para concluir bem o tema, transmitirei a vocês, em primeira mão, a poesia da Bia Olympio, que foi minha assistente de edição na Editora Ática, é sobrinha do famoso editor José Olympio. Discutimos o tema, eu passei um texto do Marías para que ela lesse e ela me brindou com estas pérolas, que editei. Obrigado Bia.

“Naquele mundo as pessoas eram transparentes, nenhum gesto ficava subentendido, nenhum sorriso tinha dupla significação. As dores eram tão visíveis e terríveis que poucos chegavam perto uns dos outros. 

Ainda estava escuro e o padeiro já misturava a farinha com água. Tinha dormido mal. Sonhara que as pessoas eram opacas, não dava para distinguir a sinceridade da dissimulação. Acordara sobressaltado. Uma mulher entrou na confeitaria. Ela estava feliz e seus olhos encontram os dele. Ele sentiu a felicidade se alastrar dentro de seu eu ao mesmo tempo em que ela foi tomada por um temor paralisante. A felicidade dele já se desvanecia. O olhar dela lançava nele o pavor que dele havia partido: temor refletido e rebatido de volta para a sua origem e que fez eco na lembrança de seu sonho. Ele foi tomado de horror, sua face se contraiu, suas mãos apertaram a borda da mesa. Ela, paralisada, fechou os olhos e quis chorar.

Assustada, ela acordou! E lembrou-se de que no seu mundo a transparência era privilégio daqueles que podiam se encontrar. Apesar da solidão, sentiu-se reconfortada. Resolveu ir à confeitaria. Nela, seus olhos se encantaram com os olhos daquele que delicadamente mas com firmeza juntava farinha e água. Sentiu-se invadida por uma felicidade ímpar. O padeiro, surpreendido, sentiu-se despertado por um desejar-se-ser-descoberto e sorriu. Ela não sabia o que havia por trás daquele sorriso, mas acreditou que a ela também era permitido o privilégio de acreditar.

O padeiro acordou não querendo se acordado: como seria bom viver num mundo em que a transparência não fosse privilégio, mas uma possibilidade sempre aberta. Saiu de casa mais cedo, rejuvenescido. Quanto estava misturando a água com a farinha, uma mulher entrou na confeitaria. A esperança que com ele despertara refratou-se até a superfície de seus olhos e ele sorriu. Ela acostumada a interpretar sorrisos como dissimulações, sorriu apenas em retribuição. 

Ele, emudecido, sentiu que já não havia mais tempo. Ela acordou angustiada. Teve medo de descobrir que a esperança já não atravessava as camadas acastanhadas sobrepostas dentro dela. Quis fugir daquele mundo em que fosco é o tempo e, apressada, foi à confeitaria. Um homem misturava farinha com água.

- Bom dia, disse ele gentilmente.

E o tempo atravessou os sonhos, alinhavou o mundo e dourou os pães.

Os jornalistas podem até fazer poesias. Os poetas fazem sonhos e sabem que a notícia revela sempre o rosto de quem a dá. Os marqueteiros têm outro tipo de loucura, reúnem o que os jornalistas noticiam e os poetas sonham, desenvolvem idéias porque acreditam nelas, querem transformá-las em produtos.   DANIEL STRUTENSKEY DE MACEDO

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