segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

APARELHAMENTO

APARELHAMENTO

É um mar de opiniões e críticas, ondas, confusão. Todos parecem entender o que não dá para se entendido, pois não é explicado. Cada qual puxa as brasas para a sua sardinha. Quem está na oposição, critica, fala de ideal, justiça e respeito. Na situação é criticado, equiparado ao anterior e elevado a menos um. É assim que a coisa vai, ou melhor, flutua sem rumo num mar de confusão. Vamos por os pingos nos is!

Você já ouviu falar em aparelhamento. Não!  Não importa, irá saber agora o que significa. É uma palavra dos anos cinqüenta, referia-se a um escritório político escondido, clandestino. Tempos de ditadura, tempos de idealistas socialistas e comunistas. Como não havia liberdade para ser do contra, de poder instalar um escritório com telefone, máquina de escrever, ter um local abrigado para reuniões, um mimeógrafo e prateleiras para guardar os panfletos, os jovens rebeldes instalavam-se na clandestinidade. Quer dizer, aparelhavam-se! 

O verbo aparelhar vem de aparelho mesmo. Máquina que facilita o trabalho da gente, a exemplo da enceradeira, da batedeira, do liquidificador, da chave de grifo, do automóvel, telefone, etc., sem os quais o homem civilizado não é nada, ou quase nada. Sem trator não se abre estrada, se for à base de picareta e enxada, na força bruta como se diz, levará décadas. Com a política é a mesma coisa. Ela depende de aparelhamentos. Você precisa ter salões que reúnam as pessoas, microfones, alto falantes, jornais, rádio e TVs para levar mensagens. E as pessoas não vão a qualquer lugar porque foram convidadas, não é assim. Elas precisam de razões, de motivações, água, café, bolinhos. Ou seja, quem faz política precisa de ajuda de outras pessoas, de preferência pessoas bem relacionadas em vários segmentos da sociedade a exemplo de um padre ou um pastor, um líder sindical, um jogador de futebol afamado, um comerciante ou industrial importante, artistas, médicos e advogados de destaque, lideres comunitários e assim por diante.

Quanto mais importante e melhor situada economicamente, melhor aparelhada. Um comerciante e industrial como o Paulo Maluf, tinha uma grande empresa, a Eucatex, e integrava a diretoria da Ciesp e da Fiesp, organizações que comandam aparelhos importantes como o Senai, o Sesc, o Sesi e o Sebrae, todos alimentados com dinheiro público e dentro da lei. Na época, estes organismos recebiam 3% da folha de pagamento de todos os assalariados, uma verdadeira fortuna. Antes de tentar a eleição para algum cargo ele se garantiu na eleição da Associação Comercial do Estado de São Paulo, tornou-se presidente desta associação, que além de congregar os principais comerciantes do estado, recebe contribuições e tem dois importantes aparelhos: um cartório de registro de contratos sociais, onde se registram as empresas e uma rede de prestação de serviço de cadastro e informações comerciais de pessoas jurídicas e físicas.

O Lula era diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na época com cerca de oitenta mil filiados e uma receita garantida por lei, a contribuição sindical, obrigatória, que atualmente o referido sindicato devolve aos operários. Mas antes não devolvia, usava o dinheiro para se aparelhar politicamente. A ação, o trabalho do sindicato é fazer política a favor dos operários sindicalizados. A Fiesp faz o mesmo, faz política a favor dos empresários. A Federação dos Bancos, a favor dos banqueiros e assim por diante. Tudo muito claro, mas falta quem faça política para o grupo que você pertence, não é verdade? Então se mexa! Faça política! É assim que funciona a sociedade de massas, através de aparelhos. Se a cidade for pequena, os aparelhos serão pobres, restritos. Se for um bairro pobre da periferia, não terá aparelho próprio, não terá atividade política própria. Será visitado por políticos de outros lugares, aparelhados em seus lugares de origem, com interesses próprios e para conseguir votos oferecerão alguns brindes de passagem, como os portugueses faziam para conquistar os índios (não seja o índio).

Depois de ter lido isto, vocês podem imaginar a situação da Bolívia. Pobre, desaparelhada, 80% da população indígena submetida ao aparelhamento de uma minoria espanhola e bem aparelhada. A Bolívia, em um século de história, teve mais de cento e cinqüenta golpes. O Morales, que é de origem indígena, foi o primeiro nativo a se aparelhar e conseguir administrar o país. Faz três anos, nova tentativa de golpe, a oposição quis formar um país novo, cuja capital seria em Santa Cruz de La Sierra.

O Brasil se manteve inteiro graças ao Exército Brasileiro. Antes, com Dom Pedro, a monarquia era garantida pela frota de guerra inglesa e pelos Lanceiros austríacos. O quartel deles ficava próximo do palácio do imperador. Os navios ingleses vigiavam a costa brasileira. Os oficiais do exército brasileiro eram recrutados entre os bem nascidos, aqueles que tinham boas relações com a corte. Este era o aparelhamento militar da nossa monarquia. Com a Guerra do Paraguai e o crescimento populacional, o Exército do reinado recrutou muita gente do povo e foi se tornando mais brasileiro a cada dia. Distanciou-se da monarquia e se aproximou da nova burguesia, passou a ser aparelho dela. Isto aconteceu em todos os países, em todos os lugares, é uma sequência natural das coisas. Todavia, por ter soldados de todas as regiões, não permitiu que províncias como a do Rio Grande do Sul e depois São Paulo se separassem da Nação.
São Paulo e Rio de Janeiro cresceram muito, ficaram ricos. Paulistas, cariocas e mineiros reclamam que o voto não é proporcional, que um deputado de Roraima tem um décimo dos votos de um deputado paulista. Que isto não é justo. 

Ora, em política não se faz justiça, defende se interesses e posições. Se fossem proporcionais, a Câmara seria dominada por alguns estados, pois estaria aparelhada por eles. Os estados nordestinos, do Norte e do Oeste não teriam força alguma no Congresso. Quem garantiu uma divisão de forças e manteve o Brasil estável foi as Forças Armadas, pois quando os políticos não se entendem, a força é a instância que conta e dá a última palavra.

O Fernando Henrique era um jovem professor, apenas isto?  Não! FHC era filho e neto de general, era uma pessoa bem relacionada, amigo de pessoas com recursos, bem aparelhadas. Não caiu do céu. Aliás, seu livro é confuso. Cresceu porque caiu nas graças e na confiança de vários segmentos da sociedade. Quando retornou ao Brasil, foi recebido por pessoas que faziam política, tinham recursos e viam nele as seguintes virtudes: formado, sociólogo, bem apessoado, democrata, cheio de idéias, filho de general. Se não contasse com o aparelhamento dos grupos que o apoiaram, teria que dar aula, escrever mais alguns livros e se aposentar como professor.

O que eu quero esclarecer é que as pessoas são importantes, sim, mas são os recursos que contam, são eles que definem onde elas podem chegar. É por isto que todo vereador quer manter a verba de gabinete. É um recurso financeiro importante para ele pagar pessoas que o manterão politicamente ativo e vivo. O gabinete é um pequeno aparelho. Se o candidato for rico, gastar dinheiro, mas perder a eleição, ele poderá se candidatar novamente e gastar mais um pouco. Não lhe fará falta. Se for remediado, terá que pagar as contas do próprio bolso, poderá ficar quebrado e ainda mal visto. As pessoas tem inveja. Algumas até se regozijam mal dizendo e diminuindo os candidatos que perderam. Outras, a maioria, corteja e fala bem dos que ganharam na expectativa de receberem favores. É cruel! Tendo isto em conta, o candidato tenta se aparelhar antes da eleição. Ou seja, busca recursos com pessoas e empresas que tem interesse nos negócios do município: merenda, limpeza, obras, etc. Compromete-se a apoiar projetos que facilitem a vida e os negócios dos que contribuíram com a sua campanha. Desta forma não fica devendo dinheiro, mas favores. Favores que poderão ser devolvidos quando for eleito. E se além de eleito, tiver um cargo, ficará mais fácil, pois estará aparelhado e poderá voar mais alto como deputado ou prefeito.

Se for da oposição, não terá cargos. Logo, é melhor e mais fácil se aproximar do prefeito e/ou do governador para apoiá-los e trocar figurinhas. Que figurinhas? Aparelhos, ora! Nos últimos anos o presidente do PPS, Roberto Freire, presidente do antigo Partido Comunista Brasileiro, que mudou de nome e sigla, foi aparelhado como Conselheiro de um dos órgãos do Governo do Estado de São Paulo e passou a ganhar cerca de 23.000,00 por mês para participar de uma reunião por mês. O curioso é que o Roberto Freire era de Pernambuco, onde fez carreira política, mas tendo perdido a eleição lá veio se aparelhar com o Serra por aqui. Como se vê, o aparelhamento não se dá apenas na cidade e no estado de origem. Quando o candidato não consegue nada na sua cidade, ele se associa a quem conseguiu em outras. O que não pode é o político ficar sem recursos, sem aparelhos. Ele morrerá politicamente.

Em resumo, política se faz com recursos, com dinheiro. É por isto que pobre raramente se candidata. Quando muito puxa voto para a sigla, serve de cabo eleitoral para os cargos majoritários.  Lula é uma exceção. O PT somente conseguiu se aparelhar graças aos sindicatos e graças aos movimentos eclesiais de base da igreja católica que atuavam na periferia, entre os pobres, na massa. Agora, depois de conseguir muitos cargos, depende dos aparelhos que conseguiu e luta para mantê-los. Todavia, como, de praxe, é uma minoria do partido que ocupa os cargos, aos poucos o partido se afasta os militantes idealistas e centraliza o poder nas mãos de quem detém os aparelhos, torna se um partido igual os outros.

Não há outro modo. Ainda não inventamos. Tem sido assim no mundo todo. Nos EUA o aparelhamento é considerado legítimo, natural. O lobby está instituído. Quem é deputado é deputado de alguém, representa um segmento, um grupo de interesses. Nós latinos fazemos de conta que a política é o que ela na verdade não é.  Já esta na hora da gente deixar de se enganar e entender de uma vez por todas que a política é um jogo de interesses. Bom repetir, de interesses. A política não faz justiça, não traz a ordem, não acaba com a pobreza. Quem detém algum poder, defende os interesses seus e do seu grupo. Um país está bem quando há equilíbrio de forças políticas, de tal modo que todos precisem negociar seus interesses com os demais. Quando isto acontece e está acontecendo agora no Brasil, o país vai bem.

Por isto, a questão não é o aparelhamento, o dinheiro arrecadado nas campanhas, mas as intenções e as competências que importam. Agora a coisa complica, pois a sociedade é uma colcha de retalhos, cada qual com um formato, uma cor. Foi assim que Deus nos fez. Todavia, se olharmos para trás, veremos que progredimos muito. A colcha ficou maior e melhor. O crescimento populacional e a urbanização dificulta que poucas pessoas deem as cartas. O jogo político agora é jogado por muitos e diferentes grupos de interesses. É a primeira vez que os sindicatos de trabalhadores jogam sem serem perseguidos. É a primeira vez que temos outras igrejas, a exemplo das evangélicas, interferindo no processo. É a primeira vez que temos uma rede eletrônica capaz de competir em informação e opinião com as grandes empresas jornalísticas formadoras de opinião. As pequenas cidades ainda estão reféns de alguns grupos, mas isto também mudará em breve. 

Antes de votar, analise se o candidato tem defendido seus interesses. É só isto que de fato importa. Se não identificar nenhum, vote com o objetivo de manter o jogo equilibrado. A democracia funciona bem assim: a posição precisa de maioria para governar a cidade e de uma oposição consistente e competente para fiscalizar a administração. Daniel Strutenskey de Macedo



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

TRANSPARÊNCIA e SONHOS



TRANSPARÊNCIA e SONHOS



Honestidade pressupõe transparência. Se as pessoas não disserem o que pensam, a honestidade não é possível. Mas como dizer o que se pensa a pessoas que pensam de outro modo e correr o risco de ser mal interpretado, de ver versões defeituosas circularem sem controle, nos difamando? O medo de ser mal interpretado e prejudicado é um dos obstáculos à transparência.  
Outro, maior que este, segundo Julián Marías, é que a transparência, na sua essência, pede que nos dispamos e a maioria de nós mal  consegue ver a si próprio, não se enfrenta, não é honesta nem consigo mesmo.

Julian Márias, espanhol, professor de filosofia e escritor, explica que a transparência é uma experiência radical e dada a algumas pessoas devido seu caráter recôndito, íntimo, oculto, e tem que ser recíproca. Diz que viver a transparência com outra pessoa é penetrar na sua intimidade e aceitá-la sem o temor de descobrir algo que não se queira compartilhar, e que há transparências parciais, trivialmente conhecidas como confiança.

Rubens Alves, escritor e psicanalista, diz que os jornalistas não usam o pronome “eu” porque quem diz “eu” mostra a cara e o “bom” jornalista não deixa que isto aconteça, que sua “única” missão é ser um espelho de cem olhos e que o bom espelho não se deixa ver. Quanto mais clara e distinta for a notícia, tanto mais invisíveis serão o jornalista e seu olho. Neste ponto, ele diz que foi atacado por uma doença oftálmica e que também atacou o Jorge Luiz Borges, que ao final da vida fez esta declaração comovente: “um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo (jornalistas e escritores). Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de habitantes, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto”. Esta doença se chama poesia. O poeta sabe que a notícia revela sempre o rosto de quem a dá.

Eu, marqueteiro, que não sou bobo, faz tempo sei que há um só tipo de gente capaz de falar de Deus, os poetas. Digo Deus querendo me referir ao lugar da moradia da consciência que é inegociável.  Lugar que a gente não sabe onde fica, nem o que é, mas que a gente, sendo filho, sabe que as mães têm.  O Marías diz que toda vida autêntica é sempre sistema e refere-se a esse recanto da alma como o último centro e que a verdadeira transparência exige uma condição: a exclusão de toda traição a esse fundo insubornável (quem vai encarar?).

Juntando-se o Rubens com o Marías, vê-se que jornalismo não combina com poesia e vice-versa. Não combina com transparência, mas com reflexão de espelho. Não combina com honestidade, mas com ilusão. O Rubens até assume que não lê jornais, só passa os olhos pelas notícias: “preciso ter uma idéia não do que está acontecendo, mas do que é notícia”. O que está acontecendo e o que está sendo notícia não são a mesma coisa. Notícia vem de notar e o “notar” varia de corpo para corpo. Urubu não nota madressilva, Beija-flor não nota carniça. Jornal de Beija-flor é diferente de jornal de urubu”.

Eu não tive a intenção de ser coerente e conseqüente. Longe de mim tal defeito. Todavia, para concluir bem o tema, transmitirei a vocês, em primeira mão, a poesia da Bia Olympio, que foi minha assistente de edição na Editora Ática, é sobrinha do famoso editor José Olympio. Discutimos o tema, eu passei um texto do Marías para que ela lesse e ela me brindou com estas pérolas, que editei. Obrigado Bia.

“Naquele mundo as pessoas eram transparentes, nenhum gesto ficava subentendido, nenhum sorriso tinha dupla significação. As dores eram tão visíveis e terríveis que poucos chegavam perto uns dos outros. 

Ainda estava escuro e o padeiro já misturava a farinha com água. Tinha dormido mal. Sonhara que as pessoas eram opacas, não dava para distinguir a sinceridade da dissimulação. Acordara sobressaltado. Uma mulher entrou na confeitaria. Ela estava feliz e seus olhos encontram os dele. Ele sentiu a felicidade se alastrar dentro de seu eu ao mesmo tempo em que ela foi tomada por um temor paralisante. A felicidade dele já se desvanecia. O olhar dela lançava nele o pavor que dele havia partido: temor refletido e rebatido de volta para a sua origem e que fez eco na lembrança de seu sonho. Ele foi tomado de horror, sua face se contraiu, suas mãos apertaram a borda da mesa. Ela, paralisada, fechou os olhos e quis chorar.

Assustada, ela acordou! E lembrou-se de que no seu mundo a transparência era privilégio daqueles que podiam se encontrar. Apesar da solidão, sentiu-se reconfortada. Resolveu ir à confeitaria. Nela, seus olhos se encantaram com os olhos daquele que delicadamente mas com firmeza juntava farinha e água. Sentiu-se invadida por uma felicidade ímpar. O padeiro, surpreendido, sentiu-se despertado por um desejar-se-ser-descoberto e sorriu. Ela não sabia o que havia por trás daquele sorriso, mas acreditou que a ela também era permitido o privilégio de acreditar.

O padeiro acordou não querendo se acordado: como seria bom viver num mundo em que a transparência não fosse privilégio, mas uma possibilidade sempre aberta. Saiu de casa mais cedo, rejuvenescido. Quanto estava misturando a água com a farinha, uma mulher entrou na confeitaria. A esperança que com ele despertara refratou-se até a superfície de seus olhos e ele sorriu. Ela acostumada a interpretar sorrisos como dissimulações, sorriu apenas em retribuição. 

Ele, emudecido, sentiu que já não havia mais tempo. Ela acordou angustiada. Teve medo de descobrir que a esperança já não atravessava as camadas acastanhadas sobrepostas dentro dela. Quis fugir daquele mundo em que fosco é o tempo e, apressada, foi à confeitaria. Um homem misturava farinha com água.

- Bom dia, disse ele gentilmente.

E o tempo atravessou os sonhos, alinhavou o mundo e dourou os pães.

Os jornalistas podem até fazer poesias. Os poetas fazem sonhos e sabem que a notícia revela sempre o rosto de quem a dá. Os marqueteiros têm outro tipo de loucura, reúnem o que os jornalistas noticiam e os poetas sonham, desenvolvem idéias porque acreditam nelas, querem transformá-las em produtos.   DANIEL STRUTENSKEY DE MACEDO